terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Espiritismo e Expressão do Ser

O espírito sendo portador do conhecimento, posição que defende o Espiritismo, alcançou no ser humano um equilíbrio cognitivo dinâmico e móvel com o meio natural que o permitiu expressar uma autoconsciência e possibilidade de combinação e recombinação desenvolvendo através da linguagem uma maior interação com os outros constituindo a cultura. Este equilíbrio do aparelho cognitivo inter-relacionado com uma variação estável dos sentidos foi o que melhor permitiu ao espírito se manifestar no corpo humano de forma a melhor construir e exercer seus conhecimentos. Basta imaginar que se nossa condição habitual fosse aquela análoga ao estado entorpecido induzido por substâncias alucinógenas dificilmente teríamos alcançado a condição que alcançamos.
Diante deste quadro, é possível reconhecer um trabalho lento e gradual do espírito na matéria num exercício de leis naturais que num processo evolutivo proporcionaram a condição humana. Esta construção é, portanto, essencialmente natural, onde o espírito construiu seu livre-arbítrio podendo manifestar originalmente suas potencialidades. Quando em face da cultura de modelos, fortemente prescritiva, o indivíduo falha em manifestar sua própria individualidade, naquilo que ela tem de única e também de universal, surge uma crise. Nestas situações costuma-se romper com o equilíbrio natural procurando alternativas para a satisfação. As mais comuns costumam ser as drogas, que estimulando algumas substâncias internas do organismo proporcionam uma sensação de bem-estar. Porém, esta sensação é apenas um contraste da inaptidão do indivíduo em expressar-se plenamente, utilizando do alucinógeno como um paliativo fugaz e efêmero das frustrações existenciais.
Curiosamente as drogas se popularizaram entre as massas do ocidente nas décadas de 60 e 70 pelos movimentos sociais de contracultura que alardeavam uma integração maior com a natureza. Com isso trouxeram elementos descontextualizados de outras culturas, utilizando de plantas alucinógenas como a possibilidade de uma imersão interior. Nada absolutamente mais falso. Uma vez que a droga promove uma desarmonização do organismo e uma falha deste em processar as informações do meio, elas contradizem fortemente sua justificativa de integração com a natureza, gerando, pelo contrário, uma desvinculação com a mesma. E não foram poucos os movimentos religiosos que pregavam uma necessidade de abertura das percepções por meio destas substâncias, sendo estes movimentos também responsáveis por sua propagação. O encontro interior de cada um consigo mesmo é um processo crítico, reflexivo, ponderado e permanente, sendo que estas premissas excluem de antemão qualquer possibilidade da utilização das drogas para tal objetivo.
Hoje as drogas estão disseminadas nos centros urbanos tendo como uso a satisfação imediata. Já não se parece mais querer utilizá-la para uma aparente integração com a natureza, mas propositadamente como uma forma de afastamento dela. Talvez a saída mais coerente desta crise seja o próprio exercício natural do ser com o contexto ambiental e sócio-cultural em que está inserido, onde o espírito possa alcançar sua voz e toda capacidade de expressão. Como? Pelo exercício pleno, e não mascarado, de suas capacidades: na instrução, educação, leitura de mundo, das pessoas, das coisas, na convivência com a diversidade, na conquista das amizades, enfim, na construção do amor – não o amor enquanto conceito desfigurado e "sentimentalóide", mas na sua vinculação imprescindível e necessária com o conhecimento.

2 comentários:

Unknown disse...

Guilherme (Bebezão)
Quero parabenizá-lo pela iniciativa do Blog. A idéia é fantástica! Assim, espíritas e não-espíritas poderão opinar sobre a Doutrina Espírita.
Sabendo que você é um estudioso, um pesquisador da Doutrina Espírita, você certamente irá explorar a exlética, a dialética, a transdisciplinaridade e o espaço ondológico, dentro da Sociologia e da Sociologia Espírita.
Um Feliz Natal para você e todos os seus familiares.
Beijos na sua mãe Su e no Ricardo.
Abraços,
Jorge.

P.S. Gostei muito mesmo.

Unknown disse...

Guilherme, seus textos estão muito bem escritos, muito bem elaborados, mas gostaria de me permitir uma opinião (palpiteiro): Por que você não explora a Teoria do Caos, Sistemas, organização e desorganização dentro dos Centros Espíritas. Afinal de contas, as Casas Espíritas trabalham em dois grandes sistemas: polissistema material e polissistema espiritual e os seus subsistemas. Acho que seria interessante.
Se for possível, responda os meus comentários.
Beijos do segundo pai: Jorge.