terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Prece Espírita I

O entendimento espírita sobre a prece não pode ser avaliado a partir de um senso comum isento de uma análise mais apurada dos fundamentos e princípios espíritas contextualizados com o momento presente. Assim, é comum encontrar em abordagens sobre a prece espírita resquícios de outros pensamentos e filosofias incompatíveis com a interpretação espírita, bem como com uma linguagem retrograda que inibe uma possibilidade de renovação do Espiritismo diante do contínuo do tempo.
Normalmente quando religiosos em geral, ou até mesmo cientistas e céticos, se referem à prece, o fazem no sentido de um pedido a uma divindade qualquer visando um interesse específico em causa própria ou em nome de terceiros. Daí já se percebe a prece espírita diametralmente oposta ao entendimento ordinário: enquanto na maioria das vezes se pensa a prece como forma de momentaneamente inverter a lógica de funcionamento das coisas para atingir determinado fim, na prece espírita se busca, pelo contrário, entender o mecanismo orgânico de funcionamento do Cosmos para harmonizar-se com ele. A prece espírita não objetiva “suspender” temporariamente lei nenhuma, mas sim compreendê-las para ajustar cada comportamento singular a elas.
Esse posicionamento pode gerar alguns entendimentos equivocados. O filósofo Arthur Schopenhauer detectou uma crise proveniente de uma incompatibilidade entre o sentido do mundo e o sentido da vida de cada um, voltando-se às religiões orientais declarando o comportamento de recolhimento e passividade o mais adequado a fim de evitar o sofrimento. Esta não é a concepção espírita. Para o Espiritismo a busca pela harmonia com o sentido cósmico é essencialmente ativo, criativo, original e pautado na construção do conhecimento. Não se busca compreender a ordem cósmica e submeter-se a ela como quem se diminui frente a uma força arbitrária, mas se busca conhecer esta ordem entendendo-a como aquela compatível com uma lógica de convivência conjunta que permite uma organização de totalidade com a possibilidade de expressão integral de cada vida dentro de suas possibilidades. Por isso a prece é extremamente ativa, pois ela implica no fato de cada um saber avaliar todo o contexto cultural, social, político, econômico, natural em que está inserido para assim, depreender as orientações cósmicas gerais e adapta-las no entorno em que pertence. Este é sempre um ato hermenêutico de converter orientações gerais para situações específicas.
São por esses motivos que a prece não pode ser algo decorado, mas palavras que num momento de crise sensibilizem cada um a refletir qual significado atribuem para o Creador, para a vida e para suas existências, reinterpretando o momento emergente a partir do conhecimento que alcançou. Assim, a prece é sempre nova, para o momento novo. Não inclui somente palavras, mas principalmente ações que sintonizem o sentido cósmico. Neste sentido o ideal é que cada um não fizesse preces, mas vivesse em prece, através de pensamentos, ações, palavras e sentimentos.

3 comentários:

Cleusa CEP disse...

OI Guilherme, gostei muito de todos os textos escritos, realmente é uma forma de construir a reconceitualização do espiritismo.Parabéns pela iniciativa,muito equilíbrio e força na caminhada. Cleusa

pako disse...

Antes de mais nada, que esse e todos os anos que estao por vir venha com muita saúde pra voce e pra todos que voce ama... Agora meus parabéns pela iniciativa do blog. Seus textos estão muito inteligentes, se bem que sou meio burro neh kkkkkkkkkkkkkk Grande abraço e atê a próxima ecto.

Rui Paz disse...

A busca da harmonia com o cosmos é um encontro com nosso próprio interior. Na nossa essência temos o registro integral da eternidade.
Rui