sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Lógica e Espiritismo

Princípios básicos de Lógica
A lógica tem por função observar o encadeamento entre afirmações e avaliar se há conexões pertinentes entre elas. Também permite avaliar se determinada conclusão pode ser derivada de certas premissas (ou afirmações).
Exemplos
Se alguém afirma que os políticos brasileiros são corruptos porque a população brasileira é corrupta têm de oferecer argumentos para se justificar. E estes argumentos devem estar ligados logicamente para sustentarem a conclusão. Não cabe à lógica verificar a verdade de cada afirmação, apenas atentar sobre os conectivos que unem as sentenças.
Lógica e mentalidade brasileira
Os currículos escolares brasileiros estão completamente defasados com relação à vida concreta dos indivíduos, de modo que parecem mais interessados no ensino dos logarítmos do que das principais questões existenciais que nos afligem. Se entre uma aula de trocas bioquímicas e outra de aceleração centrípeta os jovens alunos tivessem aulas de lógica voltada para suas vidas, quem sabe talvez não fosse tão manipulados pelos comerciais, desenvolvessem mais seu senso de justiça e moral e soubessem suportar mais adequadamente os desafios que lhe são impostos.
Espiritismo e lógica
Kardec estudou muita lógica, sendo dela exímio conhecedor. Tanto é verdade este fato que toda a obra da codificação foi construida a partir de conceitos logicamente conectados. Portanto, para melhor entender o Espiritismo hoje, e a moral dele decorrente, se faz necessário dominar alguns princípios da lógica. Isto acontecendo só beneficiaria o entendimento espírita como bloquearia pensamentos e afirmações que deduzissem da existência dos espíritos desencarnados o domínio intransponível desses nas ações dos encarnados, por exemplo.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Missão Reencarnatória

Quando desencarnados nos propomos, ao encarnar, a realizar uma série de transformações internas com o fim de nos revelarmos a nós mesmos cada vez mais. Mas, se este processo fomenta nos conhecermos em profundidade cada vez maior, sendo portanto uma ação interior, qual a necessidade que temos de encarnar e conviver com os outros?
Quando encarnados passamos à esfera do tempo e, nessa condição, nos tornamos altamente decadentes, no sentido que a partir do momento em que nascemos já estamos nos degradando e morrendo, nos tornando, assim, extremamente dependentes uns dos outros. E é nessa interdependência com os outros que expressamos alguns dos valores internos que alcançamos ou nos mobilizamos para expressar aqueles que ainda não conquistamos. Desta forma, o amor é um sentimento que só existe numa relação, é resultado e propriedade emergente da trocas entre indivíduos singulares. E embora o amor surja em decorrência do encontro com o outro, o seu entendimento, seu alcance e materialização depende do autoconhecimento de cada um e da autodisciplina particular para sua efetivação.
Desta forma, cada um reencarna com uma missão particular de efetivar mais amplamente o que alcançou e de se disciplinar para aperfeiçoar aquilo em que é limitado. Sendo assim, não há missão fechada. Cada um pode corrigir sua rota no decorrer do caminho, havendo uma missão genérica a todos: ser feliz fazendo os outros felizes.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Olhares sobre a Mediunidade

Uso e Função
A mediunidade têm sido vista por uma boa parte de pessoas, espíritas ou não, num sentido imediato de uso. Ou seja, enxergam na comunicação mediúnica uma possibilidade de interesse imediato com objetivos, no mais das vezes, particulares. Procuram "notícias" de seus entes queridos que desencarnaram ou esperam favores e/ou conselhos espirituais.
A Função é Maior do que o Uso
Sem que percebam, ao fazer este uso da mediunidade acabam por diminuí-la. É curioso o aspecto fantástico que atribuem à capacidade mediúnica, mas se ela fosse avaliada na sua verdadeira função se mostraria mais forte e natural do que a dimensão que representa hoje. A mediunidade tem uma função promotora da qualidade da vida humana. Entretanto, o uso que as pessoas fazem dela nem sempre condiz com essas finalidades.
Mediunidade e Evolução
A mediunidade está presente em todas as transformações significativas e revolucionárias da história humana. Futuramente, quando for melhor estudada, vai ser variável permanente em qulaquer estudo de caso acerca de inflexões no processo evolucionário da Terra. Não vai ser vista só como comunicação entre encarnados e desencarnados, mas como instrumento de manutenção da vida, na medida que une todos os espíritos por pensamentos e objetivos comuns.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Linguagem Espírita

Existe uma série de palavras utilizadas pelos espíritas que tenho aversão. Algumas delas inclusive já as devo ter usado, até mesmo neste blog. Isto só prova que qualquer instituição possui um currículo oculto cujo trabalho pedagógico é capaz de formar de maneira implícita uma maneira de enxergar o mundo, liberando ou interditando o que pode ou não ser dito, ou como deve ou não ser dito. Os Centros Espíritas não fogem à regra e também nos condicionam pelo vocabulário um modo de enxergar a realidade.
Linguagem
Todas as palavras são carregadas de sentidos socialmente construídos. Os vocábulos que utilizamos mediam a realidade em que vivemos oferecendo um sentido para nossas existências.
Arcaico
Uma das palavras que me causa ogiriza e que é muito utilizada pelos espíritas é seara. Não sei o motivo pelo qual ela me irrita tanto. Talvez seja implicância. Mas talvez seja porque ela carrega todo um ranço arcaico de vocabulário espírita que não permite o Espiritismo em evoluir no tempo e espaço.
Aderência
Os jovens chegam aos Centros Espíritas com algumas necessidades e expectativas e as vezes as propostas escolhidas não fazem aderência com suas vivências. Falar em seara com alguém que têm uma linguagem ultra rápida e dinâmica é no mínimo improdutivo.
Dos males o menor
Entretanto há um mal maior na insistência de termos já ultrapassados por alguns segmentos espíritas: a insistência no decadente que impede a renovação. Enquanto a ciência e a filosofia falam em complexidade, transdisciplinaridade, ética planetária, os Centros Espíritas falam em quê?
Sagrado;
Divino;
Jubiloso;
Paraíso;
Seara.
Pensemos que visão de mundo encerram estes termos.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Encarnados e Desencarnados

Gostaria de propor que todos nós espíritas, eu incluso, refletíssemos um pouco sobre o que temos pensado sobre os espíritos. Hã? Como é que é?

Sim senhor!
Um dos pressupostos das crenças espiritistas é acreditar na existência e comunicação com os espíritos desencarnados. OK! Mas como temos pensado neles? Visto o que se publica por aí as respostas não são nada positivas.

Desencarnados sabem de tudo.
É como se de repente imaginássemos que alguém quando desencarna, independente da construção moral que tenha feito encarnado, passasse a ter acesso permanente a nós e mais, saber tudo sobre nós. Daí, para os espíritos desencarnados alcançarem um status de conselheiros infalíveis é um passo.

Mágicos
Os desencarnados, ao contrário dos esforços de Kardec, se tornam:
infalíveis;
extranaturais;
absolutos;
constantemente presentes;
sábios profundos.

Tchau Livre Arbítrio
Ninguém por desencarnar torna-se expoente no que foi limitado. No máximo expande um pouco a consciência e nos enxergando de fora pode ter uma visão mais confortável para nos orientar. Mas entre isso e saberem mais do nosso vínculo com o Creador e a Creação do que nós mesmos há um abismo intransponível. Delegar a eles nossos futuros e escolhas é abrir mão do nosso exercício crítico do livre arbítrio.

Argumento da autoridade
Tudo bem! Alguns espíritos realmente alcançaram condições possíveis de nos instruir e nos provocar a avançar. Mas a sua instrução deve ser avaliada hermeneuticamente tal qual um pesquisador avalia os autores referenciais das suas teses. Nada de justificar uma verdade apenas porque um espírito desencarnado falou. Nada de autoridades indiscutíveis, nada de palavras absolutas, nada de...opa! Dogmáticos são eles, os outros. Nós, não! Somos críticos e hermeneutas. Sei!

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Onde Estarão os Espíritas?

Algumas coisas são curiosas. Se pegarmos alguns dados indicativos do IBGE no Brasil colhidos nos inícios dos anos 2000 iremos encontrar dentro de um universo de quase 170 milhões de habitantes apenas pouco mais de 2 milhões de espíritas confessos.

* * *

Este fato se torna ainda mais curioso se observarmos a relevância que tem o Espiritismo em nosso país, desde o número de publicações as mais variadas possíveis (uma grande parte de qualidade discutível), passando pela quantidade de Centros Espíritas e o espaço com o qual suas temáticas ocupam algumas mídias. Também é válido lembrar que recentemente um filme de qualidade pífia e enredo frágil e cambaleante, "Bezerra de Menezes", pelo simples fato de possuir um caráter pretensamente espírita atingiu boas audiência apesar de suas limitações orçamentárias e suas deficiências de divulgação.

* * *

Os brasileiros quando questionados em pesquisas mais informais sobre a crença na reencarnação surpreendem nas respostas, sendo o Brasil um país de maioria católica: mais de 50% acreditam neste fenômeno.

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Diante desta situação só nos resta perguntar e entender o motivo pelo qual há poucos espíritas manifestos num país em que as idéias e conceitos espíritas estão tão disseminados. Muitas são as explicações: a herança católica que condiciona boa parte a se afirmar como católico mesmo que não saiba mais o que é frequentar uma missa; o sincretismo em nosso país que faz com que não exista muito bem definido para o praticante de determinada religião quais os pressupostos de sua crença, podendo haver, assim, católicos reencarnacionistas; o status fundante católico que se manifesta em quem produz pesquisas de opinião pública inconscientemente manipulando a pergunta para obter o resultado católico; o preconceito e o constrangimento que ainda inibem algumas pessoas de se afirmarem espíritas.
Podem existir vários outros motivos que expliquem um número tão tímido de espíritas em solo brasileiro. Mas o resultado do IBGE também pode sugerir outras reflexões. Pode-se imaginar que já que tão poucos tem a coragem de se manifestar espíritas, estes seriam, pelo menos, convictos e fundamentados na crença. Ou seja, se não há força quantitativa pelo menos existe qualitativa. Nada mais falso! Eu chego a pensar que grande parte dos espíritas declarados chega a descontribuir para o próprio Espiritismo, haja visto suas manifestações e expressões completamente incoerentes com o propósito espírita. Diante disso resta fazer um apelo para aqueles que levam os objetivos espíritas a sério a se manifestarem coerentemente aproveitando uma certa aceitação de alguns conceitos do Espiritismo pelo povo brasileiro para crescer - e aí sim - quantitativamente e qualitativamente.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

As Referências Espíritas

As pessoas costumam chegar até os Centros Espíritas pelos motivos os mais variados possíveis. Alguns por curiosidade com relação aos fenômenos espíritas. Outros pela insistência de terceiros. Uma boa parte interessado em se aprofundar no estudo da Doutrina Espírita. E a maior parte, pela dor: uma doença, a perda de um ente querido, o término de um relacionamento, a perda do sentido da vida, etc. Estes últimos costumam chegar desacreditados em muitos e enxergando no Centro Espírita um último local de salvação, um ambiente que trará a solução imediata para os seus problemas.
A grande crise surge quando são orientados no Centro Espírita a se transformarem para transformar suas condições de vida. E aí recebem uma série de aconselhamentos, indicações, referências e motivações para se autoconstruírem mediante a construção de novos conhecimentos. O grande problema decorre que a maioria das pessoas que chegam com problemas já tem um cotidiano bastante atribulado para além disso terem de pensar em se reformarem, em evoluir pelo conhecimento, em se tornarem pessoas melhores, mais pacientes, mais harmonizadas com o Cosmos. Isto acontece porque foram condicionadas a agir e responder mediante as referências da cultura, de forma que se forem cortados no trânsito não podem levar desaforo para casa, mas sim revidar e se impor. O conhecimento da cultura pronta também ensina que o mundo é dos espertos, portanto se deixar corromper no trabalho em troca de benefícios se torna natural, posto que outra pessoa nas mesmas condições faria o mesmo.
O Espiritismo busca demonstrar que é justamente no nosso cotidiano concreto que devemos contextualizar as referências do Centro Espírita para que possamos nos transformar e nos adaptar mais harmonicamente às novas condições. Uma boa parte das pessoas se esquece disso e só se lembra de ser espírita no Centro Espírita, quando o grande desafio do Espiritismo é fornecer recursos e subsídios para que cada um singularemente suplante seus desafios e faça crescimento pessoal. O problema é que muitas vezes as referências espíritas são contrárias aquelas da cultura, pelas quais nós já estamos condicionados. Para ilustrar este fato vamos resumir a seguinte estória do escritor dinamarquês Hans Andersen que, dentre outras obras, notabilizou-se pelo Patinho Feio:
Havia num reino um rei extremamente vaidoso que exigia de seus alfaiates os mais belos trajes, cravejados das jóias mais belas possíveis. Entretanto, já fazia um tempo que o rei sentia-se entediado uma vez que seus alfaiates já não tinham mais criatividade para lhe fornecer algo diferente e original. Foi por esta época que apareceu neste reino um alfaiate que se apresentou ao rei dizendo que faria a mais bela roupa que monarca algum em tempo algum houvesse vestido e que para tanto necessitava do maior número de ouro, jóias, diamantes. O rei mais do que depressa forneceu tudo ao desconhecido ansioso por suas novas roupas. Passado um mês, sem que nada estivesse pronto o rei resolveu ir pessoalmente com seus ministros procurar pelo alfaiate. Chegando em sua sala o alfaiate disse ao rei que ali, sobre a mesa, estava o mais belo traje já feito por mãos humanas. O rei olhou na mesa e nada viu, e antes que se manifestasse o alfaiate advertiu: - Este traje é tão especial que só as pessoas sábias conseguem enxergá-lo. O rei, para não passar vergonha diante de seus ministros, elogiou na hora a roupa e foi vesti-lá. Voltou nu, mas todos os seus ministros afirmavam que era a mais bela roupa que haviam visto. A história se espalhou pelo reino e o rei desfilava nu pelas ruas e todos afirmavam que ele estava com a mais pomposa das roupas. Um dia, o rei desfilava pela cidade, sendo ovacionado pelo povo quando um menino, inocentemente, gritou: - O rei está nu. Esta frase criou o maior constrangimento para todos, sendo que o rei se desculpou com todos por sua vaidade e por ter sido enganado pelo alfaiate, prometendo dali em diante agir em nome de seus súditos.
Esta estória possui inúmeras leituras, cabendo uma ao nosso contexto. Muitas pessoas no começo sabiam que o rei estava nu, mas por conveniência disseram que ele estava belamente vestido. Talvez com o tempo, pelo treino e pela disciplina, passaram a ver o rei vestido. Isso acontece com muito de nós. Muitos afirmam um prazer enorme em fumar e se sentem dependentes deste vício. Mas eu duvido que alguém ao fumar pela primeira vez tenha sentido prazer. Pelo contrário, deve ter tossido ou sentido enjôo. Mas como todos fumam, ou para o adolescente aquilo significa auto-afirmação, a pessoa vai fazendo um treino, fumando cada vez mais, até que passa a sentir prazer. Da mesma forma, tenho certeza que uma pessoa ao ser chamado a primeira vez para transviar no seu emprego sente-se mal, indeciso. Mas, como o mundo é dos espertos, se disciplina e treina para aquilo, passando a não sentir mais constrangimento interno nenhum.
A proposta do Espiritismo é justamente provocar um treino contrário: ao invés de nos disciplinarmos pelos valores prontos da cultura, que tal treinarmos para agir mediante aquilo que alcançamos pelo conhecimento. Em ambos os casos vamos adquirir gosto e manejo nos comportamentos em que adotamos. Só que temos de ver o seguinte: somos essencialmente espíritos vivendo num contexto material, onde a nossa grande busca é viver os valores espirituais na materialidade. Assim, sempre que nos disciplinarmos em torno das refêrências espirituais estaremos nos harmonizando com nossa própria essência.
Gandhi, em certo momento de sua vida, decidiu viver tão somente baseado na verdade que alcançasse. Mesmo nas situações que lhe oportunizassem um benefício imediato mentindo, ele não o fazia querendo provar que ao viver a verdade os desdobramentos a longo prazo sempre seriam positivos. E assim o provou.
Então, a nossa grande busca é vencermos a nós mesmos, seja não revidando no trânsito, não tergiversando no trabalho, ou treinando para abandonar vícios.
O espírito Leocádio José Correia, pelo médium Maury Rodrigues da Cruz, disse certza vez: "O homem materialista materializa a alma. O homem espiritualizado epiritualiza o corpo".
Ao frequentar os Centros Espíritas que tenhamos todos nós a coragem para viver os valores do espírito e saber apontar para nós mesmos, quando necessário, que o rei está nu.